Um Deus pessoal

Há muito tempo teólogos e cristãos citam Deus em termos pessoais, sendo esse Deus de amor, fidelidade e propósitos, que indicam associações pessoais. A própria oração é uma maneira de nos relacionarmos com Deus, assim como uma criança conversa com o pai.

Paulo em suas metáforas soteriológicas refere-se a “reconciliação” claramente como um modelo de relação humana, totalmente por intermédio da fé, em um relacionamento entre Deus e o homem.

Porém a ideia de um “Deus pessoal” que já é parte da perspectiva cristã, levanta algumas dificuldades que necessitam ser analisadas. A ideia de um Deus pessoal pode levar à conclusão de que Deus seja um ser humano, para Paul Tillich, isso leva ao problema de localização, sugerindo que Deus encontra-se em um local definido, assim como os seres humanos, dessa forma isso parece fora de propósito em vista de nosso conhecimento do universo, todavia essa ideia faz parte de um raciocínio analógico. Significa afirmar a capacidade e a disposição de Deus para se relacionar com nós, isso não quer dizer que Deus seja humano ou que se encontre em algum ponto específico do universo.

Referir-se a Deus como uma pessoa, é o mesmo que negar a Trindade, afinal essa doutrina fala de Deus como três pessoas.

Definição do termo “pessoa”

A palavra pessoa é derivada do latim “persona”, que originalmente significava “máscara”. É possível que haja uma ligação etimológica entre essa palavra latina e a palavra usada para a deusa Perséfone, onde aqueles que participavam dos festivais em homenagem a essa deusa usavam máscaras. Nos teatros romanos, as máscaras eram muito usadas pelos atores para indicar sua personagem no drama em que atuavam, assim a palavra persona veio a significar tanto “a máscara teatral”, como “o personagem teatral” ou ainda “um papel em uma peça teatral”.

Na teologia cristã, para Tertuliano uma pessoa é um ser que pode falar e atuar, e para Boécio, uma pessoa é a substância individual de uma natureza racional.

Para os primeiros escritores cristãos, a palavra “pessoa” expressava a individualidade do ser humano e dava-se uma ênfase à ideia de relacionamento social, ou seja, alguém que interpreta um papel no drama social e se relaciona com outras pessoas. Portanto, a ideia básica que se expressava por intermédio da noção de “um Deus pessoal” era a de um Deus com o qual podemos nos relacionar, da mesma forma como nos relacionamos com outro ser humano.

A expressão “um Deus impessoal” pode trazer algumas implicações, Aristóteles disse que Deus só pode conhecer e amar a si mesmo e a ninguém mais, Ele encontra-se além do alcance de uma comunhão pessoal, São Tomás de Aquino, modificou algumas noções de Deus ensinadas por seu mestre para acomodar os conceitos da providência de Deus para com o homem e da comunhão.

Espinosa também passou por dificuldades ao afirmar que a ideia de um relacionamento recíproco de amor entre Deus e o homem envolvendo qualquer paixão, poderia torná-lo mais perfeito ou menos.

Quando cristãos falam de Deus como uma pessoa, estão referindo-se ao fato de que é possível estabelecer um relacionamento pessoal com Deus, a metáfora da reconciliação utilizada por Paulo tornar-se importante nesse ponto.

Falar de Deus como três pessoas significa reconhecer a complexidade desse relacionamento com Deus e a maneira pela qual ele se estabelece, apreciando a atividade divina da capacidade de Deus se relacionar conosco pessoalmente, significa entender que existe no interior da Trindade uma rede de relacionamentos que é a base de nosso relacionamento com Deus.

Personalismo dialógico

O escritor judeu Martin Buber, em seu principal trabalho “Eu e tu”, traçou uma diferença fundamental entre as duas categorias de relações: as relações Eu-Tu, as quais são “pessoais”, e as relações Eu-Isso, que são impessoais.

Na relação Eu-Isso, Buber refere-se a relação sujeitos e objetos, onde o sujeito ativo relaciona-se com o objeto objeto inativo, como por exemplo o ser humano se relacionar com um lápis.

As relações Eu-Tu, é algo mútuo e recíproco, onde os dois sujeitos são ativos, entre duas pessoas. Buber está sugerindo que os relacionamentos humanos retratan as características essenciais da relação Eu-Tu, é o relacionamento intangível e invisível que une duas pessoas.

Podemos conhecer algo sobre um “Isso”, no entanto, conhecemos e somos conhecidos por um “Tu”. “Conhecer a respeito de” alguma coisa é ser capaz de expressar o conteúdo no “conhecer alguém”. Esse tipo de “conhecimento” não pode ser expresso em termos concretos, portanto a relação “Eu-Tu” é algo mútuo, recíproco, simétrico e destituído de conteúdo.

O relacionamento é algo que não possui conteúdo palpável, mas que, no entando, possui uma existência real que constitui o verdadeiro foco da interação pessoal.

Martin Buber enfatiza a importância da reciprocidade, à medida que identifica o elemento do relacionamento do tipo Eu-Tu, e insiste que esse relacionamento é direto e não-mediado: O Tu encontra-me por meio da graça – ele não pode ser encontrado por meio da busca. Mas o fato de comunicar-me com ele é uma ação que parte de todo meu ser, é algo que faz parte da minha essência. O Tu encontra-me. Eu, no entanto, estabeleço um relacionamento direto com ele. Portanto, essa relação representa, a um só tempo, a atitude de ser escolhido e de escolher, algo que é passivo e ativo ao mesmo tempo. A relação Eu-Tu é não-mediada. Nenhum elemento da natureza conceitual interpõe-se entre o Eu e o Tu.

Nas implicações teológicas dessa abordagem, Buber afirma que Deus não pode ser reduzido a um conceito ou a uma formulação puramento conceitual, apenas um Isso pode ser tratado dessa maneira. Deus é aquele Tu que graças a sua própria natureza jamais se tornará um Isso.

Para a teologia cristã, a revelação não é simplesmente uma manifestação de fatos a respeito de Deus, mas a manifestação de Deus, a revelação das ideias de Deus deve ser complementada pela própria revelação pessoal de Deus, sendo um conceito que envolve tanto presença quanto conteúdo. Poderíamos compreender isso dizendo que a revelação inclui o conhecimento de deus como “Isso” e como “Tu”. Aprendemos coisas a respeito de Deus, conteudo, também conhecemos o próprio Deus. O “conhecimento de Deus” não é uma simples coleção de dados sobre Deus, mas um relacionamento pessoal.

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Síntese escrita a partir do texto “Um Deus pessoal” do livro Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica de Alister E. McGrath.

 

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Daniel Vieira

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